Saúde das mamas no dia a dia: sinais que merecem atenção entre uma mamografia e outra

Por Dra. Vivian Milani* 

 O Outubro Rosa tem um papel importante ao ampliar a conversa sobre prevenção e diagnóstico precoce do câncer de mama. Mas a preocupação com essa doença não é uma atitude restrita a um mês do calendário nem termina depois da realização da mamografia. Esse acompanhamento acontece ao longo de todo o ano e envolve manter os exames recomendados, conhecer o próprio histórico de saúde e familiar e estar atenta a mudanças corporais. 

 O fato é que nosso corpo não segue o calendário dos exames de rotina. Fazer a mamografia na periodicidade indicada é uma das principais medidas para identificar precocemente o câncer de mama, inclusive antes do aparecimento de sintomas. Mas qualquer alteração percebida nesse intervalo também merece atenção. Um resultado recente sem achados suspeitos não é motivo para adiar a investigação de um novo sinal clínico.  

 Essa atenção é importante porque existem os chamados cânceres de intervalo, diagnosticados após um rastreamento considerado negativo e antes do próximo exame programado. Um estudo publicado em agosto de 2026 mostrou que parte desses tumores não apresentava sinais radiológicos identificáveis no rastreamento anterior. (1) 

 Isso não reduz a importância da mamografia. Pelo contrário. Mostra que o rastreamento e a atenção às mudanças do próprio corpo são partes complementares do cuidado. Um exame recente sem alterações suspeitas continua sendo uma informação importante, mas não deve fazer com que um novo sintoma ou sinal seja desconsiderado. 

 Cuidado contínuo 

O acompanhamento da saúde das mamas precisa considerar que cada mulher tem um perfil de risco próprio. Idade, histórico familiar, características das mamas, resultados de exames anteriores e outros fatores individuais fazem parte dessa avaliação e devem ser discutidos com o médico ao longo da vida. 

 A mamografia, portanto, não deve ser entendida como um cuidado pontual. Desde 2025, o Ministério da Saúde assegura às mulheres de 40 a 49 anos acesso anual à mamografia pelo Sistema Único de Saúde (SUS), mesmo sem sinais ou sintomas, mediante decisão compartilhada com o médico. Para o rastreamento mamográfico populacional, a orientação é realizar o exame a cada dois anos entre 50 e 74 anos, faixa etária em que há evidências consolidadas de redução da mortalidade. 

 Começar esse acompanhamento mais cedo representa um avanço, mas manter sua regularidade ao longo das décadas seguintes é igualmente importante. Dados de longo prazo reforçam essa necessidade. Um estudo populacional publicado pelo British Medical Journal em 2025 acompanhou mais de 432 mil mulheres por até 25 anos e observou que a ausência na primeira convocação para mamografia esteve associada à menor participação nos rastreamentos seguintes, maior ocorrência de tumores diagnosticados em estágios avançados e maior mortalidade por câncer de mama. 

 Manter esse acompanhamento é especialmente importante diante da incidência do câncer de mama no país. A publicação Estimativa 2026: incidência de câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), projeta 78.610 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. Desconsiderando os casos de pele não melanoma, a enfermidade responde por cerca de 30% dos diagnósticos estimados entre as mulheres brasileiras. 

 Rastreamento e investigação diagnóstica, no entanto, são situações diferentes. A mamografia de rastreamento é destinada a mulheres assintomáticas. Quando surge um sinal ou sintoma mamário, a avaliação deixa de seguir exclusivamente a lógica do rastreamento e passa a responder a uma dúvida clínica específica. 

 Sinais de atenção 

Um estudo publicado em 2026, com mulheres que procuraram atendimento por alterações nas mamas, identificou que a presença de nódulo palpável e a retração da pele ou do mamilo estavam entre os sinais mais frequentes nos casos diagnosticados como câncer de mama. (2) 

 Entre os sinais que merecem avaliação estão nódulo endurecido, retração ou depressão da pele, mudança recente na posição do mamilo, alteração no formato ou volume da mama e nódulo na região axilar. 

 Também deve ser investigada a secreção espontânea unilateral transparente como água ou sanguinolenta. Estudo publicado em 2026 mostrou que características clínicas associadas aos exames de imagem ajudam a identificar quais casos necessitam de investigação complementar. (3) 

 Vermelhidão, calor local, aumento de volume e espessamento da pele podem ocorrer em processos inflamatórios ou infecciosos. Quando persistem ou não apresentam a evolução esperada após tratamento, entretanto, precisam ser reavaliados. Uma revisão publicada na revista Maturitas reforça a importância de diferenciar alterações dermatológicas benignas de condições que exigem investigação específica. (4) 

 A dor mamária é frequente e, quando aparece de forma isolada, apresenta baixa associação com câncer no local. No estudo realizado na atenção primária, nenhum caso da doença foi identificado entre 588 episódios de dor mamária isolada. (2) A necessidade de investigação ganha importância quando a dor é focal, persistente ou está associada a outros achados, como nódulo, retração, secreção papilar ou alteração da pele. 

 Importante destacar que esses sinais não são diagnósticos de câncer. Muitas alterações mamárias são benignas. O que merece atenção é principalmente uma mudança que não existia antes e que persiste ao longo do tempo. 

 Escolha do exame 

Quando existe um sinal clínico, a escolha do método de imagem depende da idade, do tipo de alteração, da composição mamária e do contexto da paciente. Mamografia, tomossíntese, ultrassonografia e ressonância magnética podem fazer parte da investigação, de acordo com a indicação médica. 

 Esses métodos têm indicações diferentes e podem ser complementares. A ultrassonografia, por exemplo, pode auxiliar na caracterização de determinados nódulos, enquanto a tomossíntese reduz a sobreposição de estruturas mamárias e a ressonância é reservada a situações específicas. A decisão sobre qual exame utilizar deve partir da pergunta clínica que precisa ser respondida em cada paciente. 

 A mamografia é uma das principais ferramentas para identificar alterações em fases iniciais e deve fazer parte de um acompanhamento definido de acordo com a idade e o perfil individual de risco. Ao mesmo tempo, uma mudança nova ou persistente nas mamas merece avaliação médica independentemente da data do último exame. 

 Zelar pela saúde feminina significa combinar rastreamento regular, avaliação individual de risco e atenção aos sinais que o corpo apresenta. Essas medidas são complementares e, juntas, contribuem para um acompanhamento mais atento e contínuo ao longo da vida. 

 Por Dra. Vivian Milani, médica radiologista especialista em mama da Fundação Integrada de Diagnóstico, Pesquisa, Educação e Inovação em Saúde – FIDI. 

 Fontes e referências 

(1) IOTTI, V. et al. Radiological review of interval breast cancers following screening with DBT + DM or DM: results from MAITA project randomized trials. La Radiologia Medica, 2026. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42550460/) 

 (2) VAN IEPEREN, S. K. L.; VAN DE LAAR, F. A.; AKKERMANS, R. P.; UIJEN, A. A. Likelihood of breast cancer among women presenting with breast-related symptoms in primary care, with a focus on isolated mastalgia: a retrospective cohort study. BMC Primary Care, v. 27, n. 1, p. 249, 2026. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42104316/) 

 (3) YANG, Y. et al. Clinical and Imaging Characteristics in the Diagnosis and Surgical Management of Nipple Discharge Without Clinically Palpable Masses: A Retrospective Cohort Study. Thoracic Cancer, v. 17, n. 12, e70332, 2026. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42338287/) 

(4) SRINIVASAN, N.; VIDIMOS, A. T. Common dermatologic conundrums in breast health: Distinguishing benign from serious conditions. Maturitas, v. 210, 108983, 2026. (https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/42173002/)