Trazer para a arte novos suportes é uma característica da contemporaneidade. O Mundo rural ganha sentidos mais amplos quando Zezim pinta sobre uma enxada. A imagem é realizada sobre um elemento que servia para abrir caminhos pela terra e que agora traz, em si mesmo, veredas a serem observadas com carinho e cuidado.
O cotidiano do campo ganha uma dimensão simbólica renovada. A terra que a ferramenta escavava cede lugar aos pensamentos que ela passa a gerar. Não é mais uma semente física que frutifica, mas sim a do intelecto, que a imagem faz germinar e se multiplicar em cada olhar lançado sobre a sua criação visual.
As cores utilizadas, nesse contexto, remetem ao céu de Barbacena. Funcionam como um documento de uma existência relacionada com a natureza e com as festas tradicionais. A integração entre esses dois elementos torna o trabalho de Zezim uma visceral expressão do viver e representar o interior do Brasil.
A harmonia dos conjuntos apresentados pode ser lida sob uma perspectiva horizontal de cima para baixo. O céu, as colinas, as casas, o rio e a plantação constituem um todo harmonioso, mas também podem ser observados isoladamente. Essa mecânica de análise de suas visualidades amplia significações de leitura.
Cada elemento pode ser tratado isoladamente ou no conjunto. Quando essa dualidade ocorre, é uma demonstração de que o trabalho comporta diversas interpretações. Isso o torna fascinante enquanto imagem a ser desvendada, considerada não apenas pelo que mostra, mas pelo que sugere em termos de considerar a vida rural como um ambiente de história de vida e equilíbrio existencial.
Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.












