Sanfonética, de Olavo Tenório

Abrir um objeto pode ser uma experiência de multiplicação de memórias. Esse conceito motivou a performance de permitir uma gradual visão interna da sanfona do próprio pai realizada por Olavo Tenório. Observar aquilo que está dentro dela equivale a tirar as camas que existem antes da chegada ao cerne de um cérebro.

O processo desperta curiosidade em si mesmo. Existe uma metodologia nesse abrir. Cada elemento desvendado sinaliza a possibilidade de olhar e de desenvolver ideias sobre aquilo que se vislumbra. Existe assim um processo de revelar e esconder imagens e aumentar mistérios.

O interior da sanfona do pai do artista é desdobrado como um cenário cartográfico, um mapa, uma maquete. Há ali mapas físicos e mentais. Não existe um assunto focal, mas uma infinidade de enigmas sobre a capacidade humana de criar um instrumento, de montá-lo e de desmontá-lo.

Surgem e se multiplicam assim múltiplas perguntas sobre a sua construção e utilização. Cada indagação abre um leque de outras. Está a se falar tanto dos materiais utilizados, das técnicas empregadas e dos sons que podem surgir do instrumento com um uso mais tradicional ou por meio de experimentações pessoais ou coletivas.

Abrir uma sanfona é desvendar uma caixa de ressonância interna. Trata-se de um caminhar por dentro de si pra poder se expor futuramente com maior convicção, pois segredos ali guardados de alguma maneira foram revelados de maneira consciente ou inconsciente para si mesmo e para os outros.

Oscar D’Ambrosio
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista e crítico de arte.