Guto Lacaz: e alegria e o prazer de brincar

O Itaú Cultural, em São Paulo, SP, inaugurou a mostra “Guto Lacaz: cheque mate”, em agosto, em São Paulo, SP. Com curadoria dos designers Kiko Farkas e Rico Lins, a mostra apresenta um panorama de mais de 50 anos de atividade do artista, apelidado pelos curadores de Guto ‘Sagaz’, por sua grande perspicácia e subversão.

Guto Lacaz, em suas performances da série “Máquinas”, traz ao primeiro plano essas questões. Sua forma de tomar os objetos e dar-lhes novas funções pode ser ligada as ready-mades de Macel Duchamp, mas me parece muito mais estar vinculado a uma forma de ver o mundo com total liberdade.

A questão não é tanto retirar do objeto a sua função primordial, mas colocá-lo numa nova perspectiva, com outra aplicação. Furadeiras, máquinas de escrever, guarda-chuvas ou bicicletas ganham assim uma dimensão inesperada, fruto do ludismo desse paulistano nascido em 1948.

Ver cada objeto com olhos livres é uma máxima da arte. Para ser levada a sério, é essencial que ela seja vista de maneira integrada com a ciência, nunca longe dela. Trata-se de uma vereda que está dentro de uma linhagem que reúne expoentes como Leonardo da Vinci, construtor e pintor, e Michelangelo, arquiteto e escultor, entre outros vultos do Renascimento, período em que o homem não precisava ser especializado para ser considerado genial. Pelo contrário, é na sua multiplicidade que seu talento era reconhecido.

Guto Lacaz mantém o deslumbramento de uma criança ao brincar com os objetos. Deixa de lado a função primeira de cada um deles, condicionada pelo social, despe-se dos bloqueios do certo e do errado, e os coloca nas mais diversas situações. Podem ser inusitadas ou divertidas, mas são, acima de tudo, resultado da prazerosa manutenção da fidelidade ao seu sonho de nunca parar de brincar com aquilo que vê.

 Oscar D’Ambrosio @oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, graduado em Letras,
crítico de arte e curador.