Divertidamente na Arte

Os filmes  Divertidamente 1 (2015) e 2 (2024) trazem provocações sobre as formas de pensar. O primeiro foca a mente de uma criança; e a o segundo mergulha nas contradições da adolescência. Mas como isso funciona na mente de um artista visual?

No primeiro filme, as personagens que comandam o universo da menina Riley são cinco. Cada uma delas, de certo modo, encontra paralelo no funcionamento de toda mente. O comando geral é da Alegria (prazer de viver), mas existem outras forças que se relacionam com ela.

A Tristeza (a perda), a Raiva (descontrole), o Medo (insegurança) e o Nojinho (rejeição) complementam aspectos do processo criativo. Se é possível vivenciar a intensidade do fazer arte, esse processo muitas vezes se fundamenta pelas dores e pelas perdas; pela violência ou ira contra algo ou alguém; pelo vencer o receio de correr riscos; e pela coragem de enfrentar aquilo que parece ser errado, improvável ou esquisito e que, por isso, desperta inicialmente resistência.

No segundo filme, Riley, adolescente, convive com uma dominante Ansiedade (dificuldade de lidar com conflitos), que vem acompanhada de Vergonha (desejo de se fechar para o mundo), Inveja (perante o êxito alheio), Tédio (indiferença em relação ao mundo) e aparições ainda pouco  relevantes da Nostalgia (saudade).

O artista, quanto mais se profissionaliza convive com a incerteza em relação ao futuro; receio de mostrar o trabalho e de não ser aceito; dificuldade de lidar com o sucesso de seus pares, principalmente os mais próximos; uma postura caracterizada pela apatia, ou seja, insensibilidade pelo que ocorre ao redor; e desejo de voltar a um passado real ou idealmente feliz.

Em síntese, a arte precisa de todos esses ingredientes, com destaque para uma prática em que a Alegria do fazer, utilizando materiais e técnicas nos mais variados suportes conviva com a saudável Ansiedade de estar sempre se aperfeiçoando para realizar algo que possa ser mais significativo para si mesmo e para o mundo.

Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.