Inflamação crônica, genética e alterações hormonais ajudam a explicar por que emagrecer vai muito além de comer menos
A obesidade mais que dobrou nas capitais brasileiras e no Distrito Federal nos últimos 18 anos, passando de 11,8% da população adulta em 2006 para 25,7% em 2024. Os dados são do Vigitel, levantamento do Ministério da Saúde, que também aponta que 62,6% dos adultos dessas localidades estão acima do peso. O crescimento desses índices evidencia a dimensão de um problema de saúde pública que não pode ser explicado apenas pelos hábitos alimentares. Fatores genéticos, hormonais, metabólicos e inflamatórios ajudam a compreender por que tantas pessoas enfrentam dificuldades para emagrecer, mesmo quando adotam uma alimentação equilibrada e praticam atividades físicas.
Um dos aspectos que ganha destaque nessa discussão é a inflamação crônica de baixo grau, frequentemente associada ao excesso de gordura corporal, especialmente na região abdominal. Diferentemente de uma inflamação aguda, esse processo pode permanecer silencioso por anos e está relacionado a alterações metabólicas, resistência à insulina e maior risco de doenças cardiovasculares e diabetes tipo 2. A relação é complexa, já que o tecido adiposo participa ativamente da produção de substâncias inflamatórias, enquanto diferentes alterações metabólicas podem contribuir para a manutenção do excesso de peso.
Segundo o nutrólogo Dr. Felipe Gazoni, compreender esses mecanismos é fundamental para abandonar a ideia de que emagrecer depende exclusivamente de força de vontade.
“A obesidade é uma doença multifatorial. Não podemos olhar apenas para a quantidade de calorias que uma pessoa consome. Precisamos considerar seu funcionamento metabólico, a predisposição genética, as alterações hormonais e até a qualidade do sono. Muitas vezes, o paciente faz esforços importantes para emagrecer, mas existem fatores biológicos que dificultam esse processo”, explica.
A genética também exerce influência significativa sobre o peso corporal. Estudos mostram que características hereditárias podem interferir na regulação do apetite, na sensação de saciedade, no gasto energético e na tendência ao acúmulo de gordura. Além disso, o próprio organismo desenvolve mecanismos de adaptação durante o emagrecimento, como o aumento da fome e a redução do gasto energético, o que ajuda a explicar a dificuldade de manter o peso perdido e a ocorrência do chamado efeito sanfona.
Outro fator importante é o estilo de vida contemporâneo, marcado pelo consumo elevado de alimentos ultraprocessados, sedentarismo, noites mal dormidas e estresse constante. Esses elementos podem interferir na regulação hormonal e metabólica, contribuindo para o ganho de peso. A combinação de diferentes fatores também explica por que duas pessoas com hábitos semelhantes podem apresentar respostas distintas a uma mesma estratégia de emagrecimento.
Para Gazoni, o enfrentamento da obesidade exige uma abordagem individualizada e contínua.
“Não existe uma fórmula única para emagrecer. O tratamento precisa considerar as características de cada paciente, com atenção à alimentação, à preservação da massa muscular, à prática de exercícios e aos fatores metabólicos envolvidos. Mais importante do que perder peso rapidamente é promover mudanças sustentáveis que melhorem a saúde e reduzam o risco de doenças”, conclui.















