Como aponta o poeta João Cabral de Melo Neto, “Catar feijão se limita com escrever:/joga-se os grãos na água do alguidar/e as palavras na folha de papel;/e depois, joga-se fora o que boiar”, pois aquilo que tem densidade é que ficará guardado em nossa memória.
O mesmo acontece com imagens. Esta exposição reúne as obras que ilustram o livro “O menino de Antares”, de O Catador. O título remete tanto a uma estrela supergigante vermelha da constelação de Scorpius como ao célebre romance do escritor gaúcho Érico Veríssimo.
As imagens “catam” incidentes e instantes, trazendo à tona percepções de cada capítulo, como a da capa, que enfatiza o quebra-cabeças, assim como a presença da multiplicidade de esperanças que se renova em cada arco-íris. Os trabalhos constituem assim visões feitas com diversos materiais, técnicas e suportes.
“O Fujão”, de Sanchez, por exemplo, é feita com a reutilização de garrafas PET. Paola Grell passeia por nuanças da natureza; Marta Rosa traz pedaços de quebra-cabeças; Vilson Klock apresenta visões da enchente e do cotidiano; Pedro Leão cria uma atmosfera chapliniana; Si Cavalcanti pesquisa camadas de cores; André Siqueira incute um tom mais realista; Ednelson Monteiro mergulha em paisagens fragmentadas; Ana Maria Xavier valoriza ouvidos indagadores; Dagmar Souza revela a sua visão do menino; e Mara Siloé instaura a sua cartografia.
Cada artista, à sua maneira, funciona como um “catador de imagens”, expressão utilizada por Dorrit Harazim para definir o fotógrafo polonês Jerzy Lewczyński e todo artista que parte de um certo universo, neste caso um livro, para atingir o seu próprio resultado, formando um conjunto que James Joyce, no seu Finnegans Wake, chamaria de “chaosmos”, que significa encontrar caos no cosmos e vice-versa.
Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.













