Tributo a Ricardo Amadasi – Várias esculturas II

O artista visual Ricardo Amadasi realizou uma escultura para cada um dos 30 artigos da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela Organização das Nações Unidas em 10/12/1948. Não se trata de uma ilustração tridimensional, mas de uma interpretação visual.

Artigo VIII

Toda pessoa tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes, remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Cachorro vira-lata (0,40 x 1,40 x 0,80 m, 2003)

A representação de um cachorro vira-lata junto a uma figura feminina parcialmente coberta com uma roupa evoca os elos entre eles. As conexões que se estabelecem são as da necessidade de um diálogo das pessoas com as outras de modo a eliminar toda ordem de desigualdades para que ninguém seja um marginal ou pária social, econômico ou cultural.

Artigo XX

§1. Toda pessoa tem direito à liberdade de reunião e associação pacíficas.

§2. Ninguém pode ser obrigado a fazer parte de uma associação.

Pensar o cotidiano constitui uma reflexão sobre repetições de padrões dentro de uma sociedade em que muitas funções são realizadas repetidamente ate a exaustão por baixos salários. Significa refletir como cada minuto deveria ser único e aproveitado intensamente, nunca visto como mais um, mas como único e pleno de magia e encantamento. 

Artigo XV

§1. Toda pessoa tem direito a uma nacionalidade.

O beijo (0,95 x 0,70 x 0,70 m)

Um beijo é um sopro, um simbólico encontro de almas. Pode ser uma fusão com o que se considera sagrado ou uma vivência vista como profana. Nas duas hipóteses e um caminho de duas mãos para integrar o ser humano com si mesmo, com o outro, com a  natureza e com o universo.

Artigo VIII

Toda pessoa tem direito a receber dos tribunais nacionais competentes remédio efetivo para os atos que violem os direitos fundamentais que lhe sejam reconhecidos pela constituição ou pela lei.

Cachorro vira-lata (0,40 x 1,40 x 0,80 m, 2003)

A representação de um cachorro vira-lata junto a uma figura feminina parcialmente coberta com uma roupa evoca os elos entre eles. As conexões que se estabelecem são as da necessidade de um diálogo das pessoas com as outras de modo a eliminar toda ordem de desigualdades para que ninguém seja um marginal ou pária social, econômico ou cultural.

Artigo XIII

§1. Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.

§2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

Milênio (1,10 x 1,80 x 0,75 m, 1997)

A escultura se lança no esporte ligada a uma geometria, alertando que avançar pelos milênios significa estar disposto a contestar estruturas, colocando-se além delas, em outra dimensão: a da procura permanente da liberdade de existir.

Artigo XVIII

Toda pessoa tem direito à liberdade de pensamento, consciência e religião; este direito inclui a liberdade de mudar de religião ou crença e a liberdade de manifestar essa religião ou crença, pelo ensino, pela prática, pelo culto e pela observância, isolada ou coletivamente, em público ou em particular.

Consciência (0,70 x 1,20 x 0,60 m, 1999)

O ser preso e amarrado que surge na escultura busca a liberdade. É isso que cada um de nós procura. Não se trata apenas de se livrar de amarras visíveis individuais impostas pela sociedade, mas de considerar que uma pessoa sem liberdade significa que toda a sociedade está prisioneira de si mesma.

Artigo XIV

§1. Toda pessoa, vítima de perseguição, tem o direito de procurar e de gozar asilo em outros países.

§2. Este direito não pode ser invocado em caso de perseguição legitimamente motivada por crimes de direito comum ou por atos contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas.

À Margem (0,80 x 0,75 x 0,75 m, 1995)

A escultura trata daqueles que estão à margem da sociedade, seja em termos individuais, familiares ou coletivos. Estar isolado e aparentemente sem saída é uma condição de boa parte da população do mundo. Trata-se de um existir em que parece não haver esperança e a proteção mútua entre aqueles que vivenciam essa situação é um dos poucos caminhos para enfrentar esse drama com esperança de encaminhamentos melhores para um futuro não apenas imediato, mas duradouro.

Artigo V

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Mergulho (3,00 x 0,70 x 1,10 m, 2008)

A tortura, alegorizada com um corpo de cabeça para baixo em um mergulho para o vazio, é representada como uma violenta entrada em si mesmo. Trata-se de uma entrada forçada naquilo que resta a cada um quando tudo parece perdido: a capacidade de pensar e de sonhar para que o corpo e a mente possam cicatrizar feridas abertas que nunca serão totalmente sanadas.

Artigo XVI

Os homens e mulheres de maior idade, sem qualquer restrição de raça, nacionalidade ou religião, têm o direito de contrair matrimônio e fundar uma família. Gozam de iguais direitos em relação ao casamento, sua duração e sua dissolução.

§1. O casamento não será válido senão como o livre e pleno consentimento dos nubentes.

§2. A família é o núcleo natural e fundamental da sociedade e tem direito à proteção da sociedade e do Estado.

Maria da fé (1,45 x 1,25 x 0,70 m, 2002)

Maria da fé (1,45 x 1,25 x 0,70 m, 2002)

A figura feminina maternal que habita um espaço reduzido metaforiza uma sociedade em que os espaços são cada vez menores e as fomes, infelizmente maiores. Trata-se de uma equação de cor que é escancarada diariamente e para a qual a sociedade não consegue ou talvez não deseje de fato encontrar uma resposta.

Artigo VII

Todos são iguais perante a lei e têm direito, sem qualquer distinção, a igual proteção da lei. Todos têm direito a igual proteção contra qualquer discriminação que viole a presente Declaração e contra qualquer incitamento a tal discriminação.

Mãe foi trabalhar (0,75 x 1,25 x 0,35 m)

O conjunto de personagens atesta a visão do artista do coletivo, sempre entendido como algo mais importante do que o individual. O título alude a mulher que trabalha e não está no lar justamente para que ele possa ser sustentável com dignidade. Cada personagem da obra tem importância na sua individualidade, mas é no grupo que a obra se sustenta enquanto potência de forma e conteúdo.

Artigo IV

Ninguém será mantido em escravidão ou servidão; a escravidão e o tráfico de escravos serão proibidos em todas as suas formas.

Amarras (1,15 x 0,75 x 0,45 m)

Um corpo amarrado no espaço não é apenas uma limitação física. Trata-se de um cerceamento existencial da mente. Cada pensamento que não pode ser expresso é um nó que impede mobilidades e traz sofrimento. Servir obrigatoriamente ao outro fere a individualidade e prende o próprio desenvolvimento intelectual. Cria uma prisão do direito mais primordial de todos: o da liberdade.

Oscar D’Ambrosio
@oscardambrosioinsta
Pós-Doutor e Doutor em Educação, Arte e História da Cultura, Mestre em Artes Visuais, jornalista, crítico de arte e curador.